'Eugenia: ontem e hoje', de Robert Wegner

Neste importante livro, rico em referências a autores, ideias e fatos históricos, Robert Wegner traça um panorama do movimento eugenista no mundo e no Brasil, desde seu surgimento, no fim do século XIX, até seus preocupantes ecos nos dias atuais. [1]

 

Wegner
Andrew C, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

Alerta: O conteúdo a seguir pode ser sensível ou um gatilho emocional a pessoas com suscetibilidade ao tema da eugenia.

Os capítulos iniciais encadeiam a história do movimento eugenista — bem como suas continuidades e descontinuidades em relação ao racismo e ao nacionalismo —, e o contexto da formação de um consenso científico mundial em torno da eugenia, que viria a ser a base para abomináveis leis e políticas de esterilização forçada anteriores à Segunda Guerra Mundial, nos Estados Unidos, na Alemanha e na Escandinávia, entre outros lugares.

Há capítulos esclarecedores sobre o movimento eugenista no Brasil: como foi marcado pelo sanitarismo e pelo higienismo, seus defensores, suas teses, suas instituições, seus congressos e até como envolveu uma Constituinte, para tratar de leis imigratórias. Essas características não significam que foi uma eugenia suavizada; ao contrário, os eugenistas brasileiros pressionavam pela institucionalização, por lei federal, da esterilização forçada dos supostamente degenerados.

Tal modelo "preventivo", embora baseado num conceito de raça maleável, também não se pautava propriamente pelo combate à ciência racista. Para os higienistas, a população era ignorante e deveria ser guiada na vida cotidiana e na política, não deixando de ser seletivos e excludentes quanto a raça ou pobreza. Para os eugenistas do início do século XX, o indivíduo capaz de cumprir as leis e ser produtivo identificava-se com o perfil do homem branco europeu, que supunham ser o mais avançado evolutivamente. [2]

Robert Wegner descreve, nos capítulos seguintes, como teses eugenistas, anteriormente valorizadas, foram desconstruídas e caíram em descrédito, principalmente por sua vinculação ao nazismo. Entretanto, ela continuou após a Segunda Guerra, seja incluída em políticas públicas nomeadas como planejamento familiar, combate à pobreza e desenvolvimento econômico, seja pelos que propunham abertamente a possibilidade de uma eugenia livre de racismo e autoritarismo, como Julian Huxley, o primeiro diretor-geral da UNESCO. Sobre esta posição, diz Wegner:

"Foi uma postura [...] insustentável, pois toda a dinâmica eugênica é criada por ou retroalimenta diversas modalidades de racismo." [3]

Wegner assinala que, na época presente, o entusiasmo exagerado com os avanços da genética e da genômica acabaram por desenvolver, no imaginário popular, a crença no determinismo biológico, como se os genes pudessem determinar a identidade e a personalidade de uma pessoa. Citando o Projeto Genoma Humano, o autor explica no livro porque tal crença não se coaduna com as novas descobertas científicas.

Ao longo do texto e especialmente nos capítulos finais, o autor desvela que políticas neoliberais, políticas imigratórias, políticas prisionais, a lógica econômica ou de mercado, a meritocracia, o capacitismo, a xenofobia, a misoginia etc., sob a antiga ânsia de suposta melhoria da população ou da economia, reverberam a lógica eugenista.

Que lógica é essa?

Como explica o autor, com base em Foucault, em várias passagens do livro: é criar uma cesura entre grupos sociais — os "adequados" e os "inadequados" —, estabelecendo uma hierarquia entre eles e um seletivo tratamento institucional, promovendo desigualdade e racismo.

Passagem do livro destacada pela Jorupê:

"Além de denunciar e criticar toda e qualquer hierarquização com base em categorias como as de raça, sexo, gênero, deficiência, idade, etnia, é sempre importante rejeitar também enfaticamente a falsa promessa de melhoramento biológico do ser humano.
[...]
quando falamos em seres humanos, o que significa ser melhor? Sustentar uma postura antieugênica é afirmar que não há uma resposta. A única possibilidade eticamente aceitável é dizer sim às várias maneiras e possibilidades de estar no mundo e de ser humano." [4]

Veja também o post 'Wells e eugenia'. Clique aqui.

 - - -
[1] WEGNER, Robert. 'Eugenia: ontem e hoje'. Rio de Janeiro, Editora Fiocruz, 2025. [As páginas indicadas se referem a esta edição em e-book.]

Ressalvamos que não apoiamos quaisquer programas eugênicos nem quaisquer propostas governamentais, institucionais ou educacionais de “padronização do desejável”.

[2] WEGNER, R. op. cit., p. 76-9;  130.

[3] Ibid., p. 135.

[4] Ibid., p. 171.

Fonte da imagem:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Painted_Bunting_(Passerina_ciris)_(23865076810).jpg
Andrew C, CC BY 2.0 <https://creativecommons.org/licenses/by/2.0>, via Wikimedia Commons.
 
Licença Creative Commons
A parte textual deste post está protegida sob Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional. Consulte link para mais informações.